Fascinada por Brigid

Este post de Ali, do blog Meadowsweet & Myrrh, é um relato poético e preciso do processo de descoberta e contato com as Divindades, que certamente vai inspirar quem o ler…
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Fascinada por Brigid: Como Eu Encontrei minha Deusa /O que Fiz para Permanecer com Ela (parte Dois)

Há quase três anos atrás eu comecei esta meditação claudicante sobre teologia politeísta, totalmente sem convicção ou certeza. Não que eu achasse que os outros estavam iludidos em sua adoração – mais o oposto, de certo modo eu estava quase enciumada. Eu me via num bosque quieto penetrado por uma leve névoa por entre o verde entrelaçado, meu vulto envolto em azul, minha pele tatuada com espirais e outros signos enigmáticos porém belos, talvez sussurrando gentilmente palavras de adoração e gratidão, talvez abrindo os braços ao alto para tocar a sensação surgindo da divindade, talvez curvando-me para cuidar do fogo aceso e espalhar oferendas de ervas nas chamas, sua fumaça subindo como preces para permanecer na neblina…Eu me imaginava uma xamã ou sacerdotisa, uma Druida em seu nemeton, serena e em paz consigo mesma e com seus deuses. E de algum modo, invisível exceto nas sombras periféricas da imaginação instável, estava o bando dançante e murmurante dos Muitos brilhando opalescente por entre as estrelas e as gotas do orvalho da manhã.

Todas essas imagens romantizadas eram provavelmente tão tolas quanto os fâ-clubes da Deusa/Deus que eu achava difícil levar a sério nos outros. Já ouvi de outros Pagãos que a expectativa de relacionamentos íntimos e pessoais com a divindade era apenas um mau hábito remanescente de uma infância Cristã e que era melhor ir em frente, descobrindo outros modos de ser “religioso” de modo significativo. Mas também havia mulheres e homens que pareciam ter “conseguido”, cujos relacionamentos com os deuses pareciam não apenas reais mas profundamente significativos e belos, e eu sabia que este anseio por um senso estético de beleza e atitude num terreno e nebuloso rito centrado-na-Terra era um aspecto vital do sagrado para mim. Se eu iria trabalhar com os deuses, eles teriam de ser Deuses, com o mesmo tipo de presença e assombro e êxtase neles que eu já tinha encontrado na poesia, ou numa floresta que era viva e encantada sem parecer cheia da divindade. Ainda assim, “divindade” para um politeísta é algo diferente em espécie do que “divindade” significa para um monoteísta. E uma vez tendo perdido a fé na simples versão do Homem-Barbado-no-Céu do último, eu estava cética quanto a ser alguma vez capaz de entrar na crença do primeiro por um mero ato de vontade. Eu não podia inventar minha convicção do nada, e no entanto as florestas e a noite e a aurora pareciam não precisar de deuses por detrás deles para serem suficientes para mim.

Então, há um ano atrás, no começo de Fevereiro, eu descobri quase por acidente que eu poderia encontrar os deuses nadando no fluxo dos particulares, como partículas de pó transformadas em minúsculas jóias no fluxo da iluminação suspensa contra a escuridão. E sem mesmo perceber, eu comecei a me permitir imaginar, me entregar a um tipo de jogo profundo no meu trabalho prático, e era como se, incerta como eu estava, eu tivesse aceso uma vela em meu coração e tivesse emitido sua luz na direção certa para pegar a visão do pó em movimento.

Divindade & Prática

Não foi muito depois de ter “modernizado” meu altar de meditação e começado trabalho ritual diário que as coisas começaram a mudar – e depressa. Ansiando por aquele senso da terra sagrada perpassada de divindade em expansão, eu comecei a fazer libações diárias num altar simples dedicado aos três reinos, seguindo a mesma intuição que falava a mim sem palavras no topo das montanhas com vista para o mar. Eu segurava a água numa tigelinha de porcelana entre minhas mãos, soprando gentilmente sobre ela, infundindo-a de minha energia, minha esperança, e meu anseio. Quando a tigela fria parecia pulsar de calor e a água zumbia com vida própria, eu afastava a tigela de mim, por um instante, para ver refletida a luz bruxuleante da vela abrigada no jarro feito à mão com o sol gravado. Então, eu derramava a água numa única e lenta cascata por sobre a pilha de pedras polidas do rio, recolhidas da correnteza local e arranjadas num cairn na base redonda de um prato de vaso de cerâmica. No silêncio, eu ouvia o som da água gotejando seu caminho entre as pedras. Eu via as pedras escurecendo e brilhando com o leve toque da umidade penetrando em sua pele pintada. Eu sentia uma gratidão de doer o coração, cantando em paz, e dava essa gratidão às pedras mesmas, e às águas fluindo de minhas mãos, e à vela e sua chama faminta.

Isso não era exatamente idolatria, pelo menos não como os Cristãos a entenderiam. Eu não era grata às pedras como Deuses ou Espíritos, ou as imaginava como sendo o lar, a morada terrena de algo sobrenaturalmente Outro. Eu não pedia às pedras por bênçãos ou orientação, exceto talvez numa oração secreta e tão silenciosa que nem mesmo eu podia ouvir, uma que suplicava a elas que continuassem sendo pedras, continuassem dando aquele tipo de presença que só pedras de rio, simples e cheias de redonda gravidade, podem dar ao olho e ao ouvido, aos dedos e palmas das mãos. Eu simplesmente me sentava com as pedras mesmas, com a tigela de água e a vela no jarro, e permitia ao sagrado ato do ritual elevá-las e lhes dar enquadre, refinar meu foco neste momento, no movimento e relacionamento que existiam unicamente e poderosamente neste espaço. Eu voltava a atenção a estas coisas, permitindo à imaginação estar entre seus modos de ser como faria com um poema ou uma obra de arte – não as vendo ou confundindo com meros símbolos, mas buscando algo, uma qualidade interior, ou desejando afastar tudo o que havia entre nós, todas as associações e pressuposições e planos, até tocar a verdade não-interrompida e não-interpretada, o sentido da pedra sendo pedra.

Por meio dessa prática, indo de novo e de novo ao lugar de receptividade e contemplação diante de objetos comuns, sem imagina-los como sendo algo mais (ou menos) que comuns e belos, eu aprendi a arte de prestar atenção. Quando eu sonhava com as montanhas se erguendo do mar, quando desejava a quente luz do sol em meus ombros, eu deixava esse desejo ser a verdade não-interrompida e não- interpretada, o sentido de ser quem sou, e isso eu ofertava à água, à vela, à pilha de pedras que parecia, nessas ocasiões, ressoar com memórias similares e responder com certa afinidade ao meu desejo. Era a memória, então, que havia se tornado a minha oração. A atividade da imaginação dava a nós – as pedras, a chama, a água, e eu – uma vida partilhada, uma vida de oferenda e intercâmbio. Esses objetos tornaram-se para mim uma porta aberta para a presença imediata, encarnada; e no entanto parecia que elas entravam em mim, igualmente, em minha memória e pensamento, como um espaço onde podiam tocar de certo modo as coisas que elas haviam sido, e as coisas que iriam se tornar. Eu me pergunto agora se é a habilidade de prestar atenção –estar presente, ouvir e servir –que é o primeiro passo real para um relacionamento com a divindade, e daí para a divindade dos Muitos. Pois na realidade sólida como granito daquela pequena pilha de pedras, havia algo brilhando opalescente na fronteira da percepção, algo que me buscava na mesma medida em que eu também buscava.

Mas isso ainda estava longe da crença nos deuses politeístas em qualquer sentido literal, ou mesmo de crer neles como arquétipos úteis ou energias metafóricas. Uma pedra eu podia segurar na mão, mesmo que não pudesse descrever adequadamente a experiência de sua presença vital, mas os deuses pareciam menos substanciais, mais fugidios, talvez nem mesmo reais – e o fato de que ninguém parecia capaz de descrever a experiência da divindade, ou mesmo como efetivamente buscar uma delas, não ajudava. Apesar disso, eu me sentia intrigada e desafiada pela idéia. Alguma coisa me fez entrar em contato com um colega Druida blogueiro que, pelos seus posts e meditações guiadas, me parecia ter mais experiência em “achar” essas divindades e estabelecer conexões com elas. Eu já havia tentado meditações guiadas antes, mas os seres que eu encontrava sempre me pareciam tão obviamente partes de minha própria psique, que eu não me convencia. Em nome de uma mente aberta e experimental, eu pedi a ele que fosse meu mentor por um tempo.

Pouco depois, duas coisas aconteceram. Primeiro, ele começou a me confidenciar que uma nova divindade começou a aparecer em suas meditações, uma com a qual ele tinha tido muito pouca experiência anterior, e que parecia, de acordo com as comunicações Dela mesma, muito ligada a mim. “Brigid”, ele me disse, “tem planos para você”. Isso não era uma notícia à qual eu fosse particularmente receptiva. Incrédula, de fato, era provavelmente a palavra que eu usaria. Ter uma coisa assim lhe sendo dita, mesmo que de modo honesto e até mesmo tímido, parecia muito como ter alguém olhando fixamente sobre seus ombros, insistindo que você tem um coelho imenso e invisível chamado Harvey seguindo-o por toda parte. Mesmo assim, nossa relação mentor-aluna continuou, e quando chamada eu acatei a sugestão dele de experimentar escrita criativa de novo, tendo deixado de lado a poesia e os contos desde o colégio. Foi pouco depois dos dias de neve derretendo e do sol se insinuando do Imbolc e o ano rolando depressa para o Alban Eiler, o equinócio de primavera. Na paisagem local, as correntezas estavam despertando do sono profundo, a lama brotava e os crocus e gotas-de-neve abriam caminho para a luz. Eu escrevi a história de Yewberry e sua jornada através da morte de volta à vida. E então eu escrevi um poema.
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O que Vem

Assim começa:
a gota-de-neve,
orvalho cintilante,
as tiras pesadas de branco,
a tigela da lua, suspensa,
fria e imóvel como o crepúsculo
o gelo persistente da morte inquieta
já vencido,
cada respiração perfeita e redonda
como névoa, como neblina,
vindo da noite que envelhece.
Assim começamos.
Assim começamos,
com sementes
e cavando fundo,
escuridão e solo
vêm com dor, abrindo-se
sob nossos pés duros e desajeitados,
revirado, úmido, esfarelado
e novo entre nossas mãos,
e indo para baixo, este tecido,
destemido sonho que fazemos,
que nos mantém a uma pétala
além de nossa pele pálida.
Que comece.

Que comece deste modo
como no passado, o súbito
elevar do espírito, seiva de vento e fôlego,
lábios de cada flor soltos
e doces e cantantes, abertos, esquecidos de si,
curvados ao impulso da estação, à primavera
e ao calor, ao chamado do sangue pulsante
e das águas reunidas, ao sol
que se move tão lento com dedos longos,
desde a aurora no horizonte, à terra trêmula
que estremece, esperando, movendo-se como um mar,
antecipando o fogo, antecipando o verde,
ao pulsar de suas bordas,
aos seus desejosos, secretos, silentes, zumbindo,
som e energia,
Que comece.

Que comece, esse reaprender,
esse desdobrar dos corpos, a pura música
da pele, dos músculos tensos, das línguas
instrumentos desconhecidos, caminhantes cegos,
nossas historias se seguindo, diante de nós deslizando
claras e rápidas por riachos, rasos e convidativos,
desaparecendo, mudando, crescemos, vamos para baixo agora,
seguimos para baixo, sumimos em beleza, perdemos definição,
deslizando, pegando, debatendo, acordando, subindo, florindo, brilhando,
arrastados e suspensos contra o céu,
assustados e nus e astutos,
zumbindo, zumbindo, zumbindo, tornando vida,
suspensos na luz das estrelas
louvando tudo o que vem.
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E então a segunda coisa aconteceu: nós nos apaixonamos.

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(Texto de Alison Shaeffer, escrito e postado no blog Meadowsweet & Myrrh em 18 de Maio de 2010, traduzido por Endovelicon para o Português em 20 de Maio de 2010 com permissão da autora; reprodução do texto para fins não-comerciais APENAS com autorização da autora e do tradutor, devendo constar os créditos de direito e os links para o original e a tradução)

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