Às Vezes um Deus Selvagem

Encontrei este poema de Tom Hirons na comunidade DRUID do Facebook, e no dia seguinte Philip Carr-Gomm, da OBOD, o repostou em seu blog — não pude resistir e o traduzi, porque o sentimento que ele expressa é um que muita gente está sentindo ou ainda irá sentir, quando a Natureza e Aqueles que a habitam batem à porta e demandam a atenção que lhes foi negada.

ÀS VEZES UM DEUS SELVAGEM

 

Às vezes um deus selvagem se senta à mesa.

Ele é desajeitado e não conhece os modos

Da porcelana, do garfo e mostarda e prataria.

Sua voz faz vinagre do vinho.

 

Quando o deus selvagem chega à porta,

Você provavelmente o temerá.

Ele lembra a você algo escuro

Que você pode ter sonhado,

Ou o segredo que você não quer que seja partilhado.

 

Ele não tocará a campainha.

Em vez disso ele raspa com os dedos

Deixando sangue na tinta,

Embora prímilas cresçam

Em círculos aos seus pés.

 

Você não quer deixá-lo entrar.

Você está muito ocupado.

È muito cedo, ou tarde, e além disso…

Você não pode olhar diretamente para ele

Porque ele faz você querer chorar.

 

O cão late.

O deus selvagem sorri,

Estende sua mão.

O cão lambe suas feridas

E o conduz para dentro.

 

O deus selvagem fica na sua cozinha.

Hera cresce pelas prateleiras;

Visco ocupa as luminárias

E corruíras começaram a cantar

Uma velha canção no bico da sua chaleira.

 

“Eu não tenho muito”, você diz

E lhe dá a sua pior comida.

Ele se senta à mesa, sangrando.

Ele tosse para fora raposas.

Há lontras em seus olhos.

 

Quando sua esposa chama,

Você fecha a porta e

Diz para ela que está tudo bem.

Você não quer que ela veja

O estranho hóspede à sua mesa.

 

O deus selvagem pede uísque

E você serve um copo a ele,

E então outro para você.

Três cobras estão se aninhando

Em sua laringe. Você tosse.

 

Ó, espaço sem limites.

Ó, mistério eterno.

Ó, ciclos infinitos de morte e nascimento.

Ó, milagre da vida.

Ó, a maravilhosa dança disso tudo.

 

Você tosse de novo,

Expectorando as cobras e

Fazendo descer o uísque,

Imaginando como você ficou tão velho

E aonde foi parar a sua paixão.

 

O deus selvagem pega uma bolsa

Feita de toupeira e pele de rouxinol.

Ele tira dela uma flauta dupla,

Ergue uma sobrancelha

E todos os pássaros começam a cantar.

 

A raposa salta para os seus olhos.

Lontras correm vindas da escuridão.

As cobras se derramam por seu corpo.

Seu cão uiva e no andar de cima

Sua esposa exulta e chora ao mesmo tempo.

 

O deus selvagem dança com seu cão.

Você dança com os pardais.

Um gamo branco puxa um banquinho

E brada hinos de encantamentos.

Um pelicano salta de cadeira a cadeira.

 

Ao longe, guerreiros brotam de suas tumbas.

Ouro antigo cresce como grama nos campos.

Todos sonham com as palavras de canções há muito esquecidas.

As colinas ecoam e as pedras cinzentas ressoam

Com risos e loucura e dor.

 

No meio da dança,

A casa decola do chão.

Nuvens ascendem pelas janelas;

Relâmpagos batem seus punhos na mesa.

A lua se debruça à janela.

 

O deus selvagem aponta para o seu flanco.

Você está sangrando em abundância.

Você está sangrando há muito tempo,

Talvez desde que você nasceu.

Há um urso na ferida.

 

“Porque você me deixou para morrer?”

Pergunta o deus selvagem e você diz:

“Eu estava ocupado sobrevivendo.

As lojas estavam todas fechadas;

Eu não sabia como. Sinto muito.”

 

Escute-os:

 

A raposa no seu pescoço e

As cobras em seus braços e

A corruíra e o pardal e o gamo…

As grandes bestas inomináveis

Em seu fígado e seus rins e seu coração…

 

Há uma sinfonia de uivos.

Uma cacofonia de dissensão.

O deus selvagem acena com a cabeça e

Você acorda no chão segurando uma faca,

Uma garrafa e um punhado de pêlo negro.

 

Seu cão dorme sobre a mesa.

Sua esposa se agita, lá em cima.

Suas faces estão molhadas de lágrimas;

Sua boca está dolorida de risos ou gritos.

Um urso negro está sentado junto ao fogo.

 

Às vezes um deus selvagem se senta à mesa.

Ele é desajeitado e não conhece os modos

Da porcelana, do garfo e mostarda e prataria.

Sua voz faz vinagre do vinho

E traz os mortos à vida.

 

(Escrito por Tom Hirons, traduzido e postado por Ricardo Silva (Endovelicon) em Fevereiro de 2016 com permissão do autor; reprodução permitida APENAS para fins não-comerciais, desde que constando os nomes do autor e tradutor e o link para o original.)

 

Anúncios

1 Response so far »

  1. 1

    José Carlos Rodrigues de Souza said,

    Fantastico, Obrigado por mostrar-me essa maravilha.


Comment RSS · TrackBack URI

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: