(Sem Título)

Caffeine and Magix é uma jovem escritora cujo Tumblr está cheio de coisas interessantes, e este texto em particular me interessou como um exemplo clássico da complexidade do relacionamento entre seres humanos e a Boa Gente — maravilhem-se 😉 

Escreva uma história sobre como você se tornou a pessoa mais poderosa do mundo…por acidente.

  1. Você aprendeu sobre o efeito borboleta na escola. O conceito é interessante, mas não o suficiente para impedi-lo de dormir ao longo do filme. Você ouve alguma coisa distante sobre uma borboleta batendo as asas e furacões. Você pensa que isso jamais se aplicará a você.
  2. Você sabe agora (não então) que o poder vem por meio de e por causa de favores.
  3. Se você soubesse isso então, você provavelmente não teria prestado tantos deles.

(Isso é onde tudo começa.)

Um.

Há uma estranha criatura atravessando o caminho atrás do salão de conferências. Você para em sua bicicleta e franze a cara. Parece um pouco uma tartaruga, mas seus membros são mais longos que os de qualquer tartaruga que você já tenha visto.  Ela está estendida no asfalto quente, membros longos e pálidos arrastando-se em direção ao pequeno riacho que corre do outro lado.

Você salta da bicicleta e pega gentilmente a criatura, as mãos sob a carapaça como você viu na Internet.

Imagine a surpresa quando a carapaça escorrega da criatura, deixando cair uma mulher minúscula no asfalto.

“Água”, ela chia, seus olhos pequenos bem fechados. Suas pálpebras são do tamanho das suas, o que significa que são enormes nela. “Por favor”.

(Só mais tarde você saberá o que por favor significa exatamente para as fadas.)

Você sente seus movimentos através do choque. Você a pega e a leva até a beira d’água. Ela desliza sob a superfície, pele pálida brilhando como escamas de peixe, e então some.

Você pensaria que seu colega de quarto pôs alguma coisa no seu café da manhã se ela não estivesse de volta um instante depois, pondo uma pedra pequena em sua mão.

“Um dom”, ela diz. Seus olhos estão grandes e negros, adequados ao seu mundo subaquático. “Por um favor.” Ela sorri, exibindo dentes serrilhados e agudos como os de uma piranha.

Quando você pisca, ela se foi.

Você encara a pedra em sua mão esquerda. É macia e polida por anos sob a água, uma espiral interessante de granito e quartzo. “Queria saber”,você começa dizendo.

A pedra congela tão depressa que você não tem tempo de largá-la. O gelo rodopia através da pele, queimando aonde toca, e você vê horrorizado sua pele se tornar mesclada de negro e azul.

Você cai de joelhos pela dor e sufoca um grito quando a pedra afunda em você, tocando o osso e enviando mais gelo por sua medula. Ela sobe pelo braço e toca o olho, alterando sua visão de modo que você enxerga duplo, um mundo estranho e azulado justaposto àquele que você conhece e ama.

No instante seguinte, a dor se foi, embora a visão permaneça a mesma. Você não hesita e salta em sua bicicleta, pedalando tremulamente para casa.

Mais tarde, quando você está expulsando o frio remanescente com um banho quente, você percebe que a pedra deixou uma marca, redonda, branca e negra no centro de sua palma.

Isso o perturba um pouco até você ver seu olho esquerdo no espelho. Ele está negro, escuro como piche, como os olhos da criatura. Quando você fecha o olho direito, o mundo se torna azul e você pode ver sombras se retorcendo atrás de você.

Memórias, sussurra algo atrás de seu olho. Nada mais.

“Oh”,você diz em voz alta, “é só isso?”

Você sai para comprar um tapa-olho.

Dois. 

Você deixa um pouco de creme para os brownies em seu apartamento, sentindo-se culpado por nunca tê-los notado antes. Eles, por sua vez, fazem algo com suas roupas que as protege de amarrotamentos ou manchas.

E quando sua mão escorrega, deixando uma faca cair no seu colo, a faca não corta nem tecido nem pele. Você pega a faca e continua cortando batatas.

(Você continua deixando pão e creme a eles depois disso.)

Três.

Você é um supervisor discente e você foi pego sem seu tapa-olho. Você olha para a caloura, que o encara de volta. Ela tem asas nas costas, coisas brilhantes, e não há olhos sob seja lá que encantamento ela esteja usando.

“Oh graças a deus”, diz ela. “Meu quarto–”

“Vou transferi-la para o pavilhão sul”, você diz. Você sabe qual é o problema. Ferro.  “É ecológico. Plástico reciclado”.

Uma semana depois ela lhe dá um beijo na testa. Isso queima, e o perfume de flores é quase insuportável.

“Para sua próxima vida”, ela sussurra sorridente antes de escapar.

Quando você se olha no espelho, seu olho murmura sobre cura e invencibilidade e uma vida extra (se você assim escolher).

Quatro.

Você está fazendo trabalho comunitário por créditos extras quando encontra o troll. Ele está preso no chão, o lodo da chuva passada prendendo suas pernas na quadra como cola.

“Responda minha adivinha”, ele rosna, braços longos arqueados preenchendo o túnel que você supostamente deveria estar limpando. “O que é marrom, tem uma cara, usa coroa, mas não tem pernas?” (*)

Você pensa, segurando o saco de lixo nas mãos. “Um centavo.”

A boca do troll se curva para cima. “Pode passar.”

“Se eu o ajudar”, você pergunta, sem se mover, “o que você me daria?”

O troll continua sorrindo e não diz nada. Você continua a limpeza de qualquer jeito, puxando a lama até que ele se solta, jogando latas e detritos no saco até estar cheio. Você se vira para partir.

O troll o golpeia com tal força que você sai voando, girando no ar, até bater numa árvore. Forte. Se não fosse por suas roupas encantadas e a vida extra que a caloura lhe deu, você estaria morto agora.

“Meu dom é sorte”, diz o troll. “Embora você pareça ter bastante dela.”

Quando você deixa de ver estrelas na frente dos olhos, o troll já se foi.

Você nunca mais encontra um troll novamente.

Cinco. 

Você percebe que os humanos começaram a evitá-lo. Há algo no modo como você se posta, o modo como você os olha, que é perturbador.

Quando você vê uma mulher sendo assediada no trem, você se esgueira atrás do homem e sopra no seu pescoço.  Ele empalidece como se acabassem de pisar na sua cova e foge cambaleando para longe dela.

Ela sorri para você e seu olho está coberto, mas você sabe.

Ela oferece uma maçã, sua aparência bruxuleando entre uma mulher jovem e outra muito, muito mais velha. “Pelo seu incômodo”.

Quando você come a maçã (ei, é tarde da noite e você perdeu a desconfiança de antes), você sente o gelo em sua aura desvanecendo. Você agora é capaz de alternar entre ambas, sua humanidade e sua alteridade, e sorri enquanto a devora, caroço e tudo.

Seis.

Com o dom da maçã, você pode ser humano de novo e falar com seus amigos humanos. Você está acampando com dois deles, Elyse e Milton. Eles desaparecem do acampamento na noite da lua cheia.

“Elyse? Milton?” Você espia o arvoredo procurando algum sinal de seus amigos. Algo atrás de você está sussurrando, soando com urgência, então você tira seu tapa-olho pela primeira vez no mês.

O mundo se torna azul e sua atenção é atraída por uma linha de cogumelos que leva até as árvores.

Anel de Fada, a voz sussurra, a Corte Luminosa está caçando.

Você cerra os dentes e segue a trilha.

Você chega em Sob-a-Colina, o que, se você for humano, significa que você não pode voltar. Você deixa sua humanidade dissipar-se de sua aura, seus presentes e dons e favores brilhando ali.

Você tem quase certeza de que você não é humano o suficiente para que as regras se apliquem a você.

Você encontra Elyse and Milton dançando, pés sangrando sobre cacos de taças de champanhe de cristal. Há tantos tipos diferentes de fada ali, mais que a criatura aquática, os brownies, a fada da vida, o troll, ou a anciã.

Mais especificamente, há uma Rainha ali.

Ela é bela como os animais selvagens são belos, mas com a inteligência que deixa as pessoas em alerta. Mais inteligência, de fato, porque quando ela olha para você, sua face se contorce.

“Você fez tratos, mortal”, ela sibila. Sua corte está paralisada ao seu redor, alguns meio fora do chão, outros cujos olhos vão de você a ela e de volta a você. Elyse e Milton parecem manequins, sorrisos grotescos em seus rostos.

“Tudo que tenho”, você diz, “foi livremente dado.”

Isso faz a corte tagarelar, murmurando por entre lábios congelados.

A Rainha se levanta, um movimento terrível que a coloca bem acima de você. Ela desliza à frente, o vento uivando às suas costas mas sem ousar tocá-la realmente. “Por que você veio aqui?”

Você encara os olhos dela sem medo (uma maçã para sua saúde) e diz, “Por meus amigos.”

“Eles vieram aqui por sua livre escolha”, diz a Rainha. “Eles são nossos.”

Você sabe das coisas, graças ao seu olho. Você sabe que ela está certa, você sabe que não há modo de quebrar tal encantamento. Eles devem dançar até o raiar do dia e, se ainda estiverem vivos, serão liberados.

Você vê os cacos no chão, alguns deles de ossos, e sabe que ninguém jamais está vivo ao raiar do dia

“Não”, você diz à Rainha, “eles são meus.”

E vocês lutam.

Ela é antiga e poderosa, mas seu poder é uma coisa precária, mantida como refém por sua beleza e sua própria magia. Tudo que você tem é seu, moldado em sua alma, ao alcance dos dedos, embora você seja jovem.

De qualquer modo, você vence.

E a morte da Rainha é tal favor que a própria terra lhe dá um dom. Você implora para ela não fazê-lo, para ela reter seu poder, mas ela não o faz. Ela não pode, esse não é o seu modo de ser.

O poder o preenche, e o transforma. Ele rompe sua pele e arde na cicatriz em sua palma esquerda, aprofundando-a ainda mais. Cada parte sua oscila e se parte de novo e de novo enquanto o poder busca a forma certa que possa contê-lo.

Quando termina, você é o mesmo mas diferente. A Corte Luminosa olha enquanto você grita sobre o corpo de sua Rainha, um som alto demais para vir de uma garganta humana. Alguns caem, inconscientes ou mortos, você não se importa.

Não há mais lugar para você entre os mortais.

Quando a manhã chega, você envia Milton e Elyse de volta ao acampamento, apagando as memórias deles sobre você. Você está mais calmo agora, resignado, e não há nada para você aqui.

A Corte Luminosa tenta fazer com que você fique, dizendo algo sobre assumir seu lugar, mas você não vai fazer isto. Você não vai se tornar como ela era, e você não está comprometido com ninguém.

Você sai pelo mundo à procura de favores.

——————————————

(*) o original diz “head and tail”, cara e coroa, mas a ambiguidade se perde na tradução 😉

(Escrito por Caffeine and Magix, traduzido por Ricardo Silva (Endovelicon) e postado em 22 de Fevereiro de 2017 com permissão da autora; reprodução PROIBIDA para fins comerciais)

 

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