Indo Além da Luz

Este texto do site Snowhawke´s Druidry Blog fala da importância da escuridão como complemento necessário à luz (um tanto como o que Emma Restall-Orr, da Druid Network, chama de “escurização” como o complemento da “iluminação”):

Ontem foi quase verão em meu lar em Casco, Maine — temperaturas chegando aos 30, com uma brisa morna, nuvens finas e leves dançando 6 mil metros acima. No entanto, sendo Abril, a própria terra ainda não começou a expressar a sua canção do verão. As árvores ainda estão desfolhadas. Ainda não há criaturas que picam voando por aí. No topo da colina, a rocha onde eu me sento e com a qual medito está morna e convidativa. Eu disse “com a qual medito” porque a rocha não é só um objeto para que eu a contemple. Não é apenas matéria física. Não é só um utensílio para sentar enquanto busco constructos intelectuais para debater em minha mente. A rocha e eu estamos em relação, um com a outra.

Ao sentar-me na rocha e enraizar-me no solo sob ela, uso a escuridão dentro de mim e dentro da rocha como um canal para reafirmar minhas raízes para a Mãe Terra. Eu não visualizo as raízes como fibras de “luz” para “fazer” essa conexão. A luz é uma ilusão. Ela nos mostra muito pouco do mundo à nossa volta. O que vemos com nossos olhos é apenas a reflexão da luz na superfície de outro objeto. Não vemos nada de seu passado, futuro, nem, o mais importante, vemos nada de sua natureza interior. Quando usamos os olhos para nos conectar só temos as experiências mais superficiais e rasteiras. Aprender a tecer conexões sem luz nos permite o potencial para relacionamentos muito mais profundos. Vamos do mundano ao espiritual simplesmente aprendendo a “ver” sem a luz. É a diferença entre olhar a foto de um morango e a experiência de tocar, cheirar, provar, ingerir e digerir essa refinada fruta. Assim meu trabalho de forjar relacionamentos, de enraizar, conectar, aprender a tocar, ouvir, ver e experimentar a Natureza, não é baseado na busca da luz. É exatamente o oposto. Eu consigo isso ao trabalhar com a escuridão que há dentro de tudo. Escuridão é a força primária da Natureza. Quase 100% da Natureza é escuridão. E, como druida, meu trabalho é o de me conectar com a terra, as pessoas e os deuses; buscar o intercâmbio da energia vital que chamamos de awen. Tendo visto que a maior parte da realidade está contida na escuridão, é lá que eu procuro a conexão de alma com alma que traz consigo o fluxo do awen sagrado.

Assim sentado nesta cálida rocha cinzenta, eu encontro a conexão que nutre a minha alma. É um relacionamento de respiração com a Terra — não a respiração pulmonar baseada em oxigenio, mas uma forma diferente de inspiração e exalação. É uma respiração que é uma troca mútua de energia vital. E para mim essa energia vital não tem a ver com cor ou luz. Tem a ver com a potencialidade retida dentro da noite, naquela escuridão infinita da própria Natureza.

Quando falamos de meditação, frequqntemente visualizamos um processo mental. Detemos a mente e vamos de um lugar de imobilidade para encontrar uma experiência mais profunda. Experimentamos nosso senso de eu retirando-se e percebemos a interconexão que partilhamos com todo o universo. Isso não é o bastante. Percepção, mesmo poderosa, não é o bastante. Ainda é algo confinado à mente. Nós nos movemos de um lugar interno, observador e observado. Eu quero ir mais fundo que isso.

Sentado quieto na rocha, minha alma respirando com a Terra, fui além da “idéia” de conexão, da simples consciência do mundo à minha volta. Minha meditação foi a um novo nível, um do simples “sentir”, talvez “ser” fosse uma palavra melhor. Era um lugar de experienciar fronteiras se tocando, dançando e se combunando com outras fronteiras. Não era um lugar de imobilidade e paz. Não era uma experiência do centro, mas uma de fronteiras. Era cheio de caos e potencialidade rodopiante, a criação da vida surgindo e desaparecendo–energia vital unindo-se e se separando de outra energia vital, ambas destrutivas e criativas no mesmo instante. Digo “instante” por não achar que esse seja um lugar dentro do campo do tempo. O tempo parecia ter sido deixado de fora. Com certeza não era cheio de “luz”. Estava completamente dentro da escuridão, dentro do potencial ilimitado do espaço vazio e de infinita expansão do vácuo.

É difícil pôr estas experiências em palavras. Sinto como se tivesse dado um passo no sentido de forjar e comungar com a deusa sombria, de chegar a uma experiência da divindade além das palavras. Eu a toquei por um momento e isso abriu uma porta pela qual tecer uma experiência mais profunda da divindade, comungar com a divina mãe sombria do caos que chamamos de deusa sombria, mesmo enquanto o sol derrama sobre mim infinitas ondas de luz.

(Texto original de Kevin Emmons, traduzido por Endovelicon em Abril de 2010 com permissão do autor, postado para fins não-comerciais)

Anúncios

1 Response so far »

  1. 1

    Marcia Sousa said,

    “a luz é a mão esquerda da escuridão e a escuridão é a mão esquerda da luz .Vida e morte são como amantes na na unidade do extase -dois em um- como mãos postas, uma contra a outra, são o príncipio e o fim.” (A Mão Esquerda da Escuridão – Ursula Kroeber Le Guin)

    Sómente agora, mais ou menos 30 anos após ler e me impressionar com essas palavras, lendo esse maravilhoso artigo, pude entende-las….que maravilha de artigo….minha gratidão ao escritor e ao tradutor…muitas benãos da Mãe-Terra


Comment RSS · TrackBack URI

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: