No Princípio

Uma floresta é feita de vários tipos de árvores.
Este blog pretende mostrar o que escreveram várias pessoas,
todas tocadas pelo espírito Celta,
para que suas palavras não se percam,
mas sim formem uma floresta de imagens & música
que cresce sem cessar, dia após dia.

Gostaria de começar, sem rodeios, expondo um exemplo moderno da visão de mundo Celta, que veio do site de James Liter, cujo original está aqui:

A Jornada de Retorno

Por James Liter  

Eu fugi Dele, por noites e dias:

Eu fugi Dele, pelos arcos dos anos:

Eu fugi Dele, pelos labirínticos caminhos

De minha própria mente; e na névoa das lágrimas

Eu me escondi Dele, sob riso corrente

De O Mastim dos Céus, de Francis Thompson  

Fionn estava em apuros.

No segundo em que ele pôs o polegar na boca, ele soube disso.

No instante em que pôs o polegar, queimado pelo salmão da sabedoria, na sua boca, ele estava em apuros. Não era porque Finnegas ficaria zangado. Finnegas era sábio demais para ficar zangado. Não, Fionn estava em apuros porque Fionn era agora Fionn. Fionn era agora Fionn com toda a sabedoria do mundo, com toda a sabedoria de Fionn. Nada mais seria como antes. Ele não podia mais ficar ali no rio com Finnegas. Ele não podia mais ficar com Fionn. Ele sabia demais. Ele estava em grandes apuros. 

Cormac mac Airt estava em apuros.

No momento em que Cormac viu o jovem misterioso na campina verde, foi nesse preciso momento em que Cormac mac Airt ficou em apuros. O ramo cintilante podia bem se chamar “Arauto de Encrencas”. Ahh, o doce vermelho da encrenca naquelas nove maçãs. Cormac estava em apuros. Ele estava pronto para pagar qualquer preço por aquela encrenca, o preço dos apuros. 

Fionn estava em apuros. Cormac estava em apuros. 

Bran estava em apuros.

Bran estava realmente em apuros quando caiu no transe da canção do ramo de prata.

Todos eles tinham sido atacados.Atacados por algo maior do que eles. Algo não deste mundo os atacou e tirou deles toda a segurança. Num mero segundo o ramo de prata e o salmão da sabedoria e as maçãs vermelhas fizeram com que eles questionassem tudo o que achavam que sabiam. Não, apagaram tudo o que eles achavam que sabiam, fizeram disso um mero borrão cinzento em comparação com o que eles souberam após o ataque. 

Fionn, Cormac, e Bran estavam todos em apuros. 

E quanto a Gwion? 

Do outro lado do mar, Gwion estava em sérios apuros – apuros que ele desesperadamente não queria. Caridwen respirando em sua nuca é uma encrenca maior do que qualquer um possa querer. Ele fugiu e se transformou em muitas coisas para evitar a encrenca que era Caridwen. A encrenca de Caridwen, no entanto, não era nada. Como uma galinha, ela o capturou e comeu, um mero grão. Aquela encrenca havia passado. A encrenca real começou nove meses depois. 

Taliesin estava em apuros.

A encrenca do fardo da verdade cercada por mentiras. Isso é uma encrenca difícil de suportar. 

E quanto a Cu Chulain, e Myrddin, Maíle Dúin, e Maeve, e outros mais? E quanto a Orfeu atacado por Apolo? E Odin? Atacado no poço da sabedoria, sacrificando um olho, enforcado por nove dias e nove noites, ferido. Atacado. E quanto ao Cristo? Atacado. O Buda? Atacado. Eles estavam todos em apuros. Eles foram todos atacados, e não havia nada que pudessem fazer. 

E quanto a nós?

Nós achamos que podemos evitar o ataque. Achamos que podemos erguer muralhas de distrações e vícios para abafar a canção do ramo de prata, para manter a campina verde dentro, a salvo do jovem e do ramo cintilante, para cozinhar o salmão para alguma outra pessoa sem queimar o nosso polegar. Erguemos muralhas para manter Caridwen do lado de fora. Tornamo-nos como o jovem príncipe Kamar al-Zaman, afastados de nosso casamento sagrado, trancados por trás de nossas muralhas. 

E somos Siddartha. Somos mantidos afastados da verdade do mundo por essas muralhas. Mas assim como Siddartha, as muralhas de nossos luxuosos castelos não nos impedirão de sermos atacados. Ficaremos cansados das coisas mundanas que nos distraíram, ficaremos cansados de nossos vícios, e convocaremos nosso cocheiro para nos levar dali. Lá, na carruagem, seremos atacados. Velhice, doença e morte nos atacarão. O cocheiro nos atacará. Nós nos afastaremos do mundo de nossas luxuosas prisões. 

Não há nada que possamos fazer. A encrenca não é para ser evitada. Quanto mais rápido fugimos, maior ela fica. Nossos lares se foram, nossa segurança se foi. Nosso eu se foi, e estamos em apuros. Mortos. Mortos. Seremos atacados e quando formos verdadeiramente atacados, não haverá nada que possamos fazer.  

Perceber que fomos atacados é o primeiro passo. Perceber que não há nada que possamos fazer. Desesperadamente tentar ficar onde nos sentimos seguros. Procurando o nosso lar, debatendo-nos e destruindo para encontrar nosso lar, não o encontraremos. Gwion não pôde encontrar formas suficientes para evitar Caridwen. Não podemos correr rápido o suficiente para pegar a égua, ela está sempre fora do nosso alcance. E mesmo assim, de novo e de novo, dia após dia, nós a caçamos. 

Mas então, no momento em que percebemos que não há nada que possamos fazer, a caçada já não é mais uma caçada. É então, neste momento, que nossa encrenca mais séria começa, pois sabemos então que não há mais nada. Nada. Caridwen comeu Gwion e então vieram nove meses de escuridão, do nada, e então, nas contrações do parto, Taliesin soube que estava em apuros. Debatendo-nos em nossa confusão ao sermos atacados, em nosso paradoxo de ter a morte e o nascimento no mesmo instante, sabemos que estamos em apuros. Quando abrimos mão da caçada sabemos que estamos perdidos, quando aceitamos o ataque, quando sabemos que não há nada que possamos fazer, estamos perdidos. 

Trememos no nada. Trememos no desconhecimento. Trememos na calamidade. 

A calamidade no problema da morte e do nascimento. 

Porque abrir mão da caçada? Lute contra a morte até a morte. Tente. 

Nós certamente tentaremos. Ergueremos mais alto as muralhas. Mas não há nada que possamos fazer. Seremos atacados. Escutaremos o ramo de prata. Desejaremos provar as maçãs vermelhas de encrenca. Quanto mais altas forem as muralhas, maior crescerá a encrenca. É só através da encrenca que encontraremos a paz. É só por meio do ataque que não haverá nada a fazer. 

Que o ataque venha. 

E veja o que surge da encrenca. O que surge da morte do eu. O que nasce em nosso eu por meio de sua morte? Neste mesmo momento, somos nascimento e morte sem separação. O que acontecerá? 

Embora não como esperado, Fionn obteve o que procurava. Cormac não sabia que estava procurando por algo até ver o ramo cintilante. Bran não sabia que estava procurando por algo até ouvir o ramo de prata. Quando o viu, Cormac quis o ramo cintilante. Quando o ouviu, é quase certo que Bran não o quis, não quis escutar o ramo de prata. Gwion não queria, Taliesin pode tê-lo querido ou não, mas certamente ele fez o melhor uso dele quando o teve, para o desalento daqueles bardos desafortunados e sem rima. Estejamos procurando ou não, desejando ou não, quando somos atacados somos presenteados. Uma dádiva, um certo isso ou aquilo, está agora no nosso colo. O que fazer? O que fazer? Correr de volta para a segurança do nosso lar? Acabou. O que fazer? Nada. 

As dádivas do ataque não são deste mundo. Que o ramo de prata seja o ramo de prata. E ele será o melhor ramo de prata que já existiu. O que surge da encrenca? O ramo de prata se torna o ramo de prata. Gwion se torna Taliesin. Jesus se torna o Cristo. Gautama Sakyamuni, Siddartha, se torna o Buda. Odin se torna o todo-sábio. Ele dá as runas ao seu povo. Gwion se torna Taliesin e dá a verdade ao povo. Orfeu dá a medicina, escrita, astrologia, magia, música. Fionn nos deu o maior grupo de homens. Guiados pelas dádivas do ataque de um lugar não deste mundo, eles deram grandes coisas. Isso é o que surge da encrenca da qual falamos. 

O que as dores de parto de nossos apuros nos trarão? Ninguém, nem mesmo nós, sabe o que daremos, não até que seja dado, e freqüentemente nem mesmo então. O mistério do ramo de prata, de sermos nós mesmos, está além da descrição. Só conhecemos a música quando a ouvimos. O que surge da encrenca? A música mais doce do mundo — a música de nosso eu. 

Mas por agora estamos em apuros.

Fomos atacados. Estamos mortos. Encontramo-nos no momento paradoxal que é ambos, morte e nascimento. 

Precisamos de um livro dos mortos? 

Precisamos de um livro dos vivos? 

Poderia o livro dos mortos ser também o livro dos vivos? 

Este grande livro poderia nos indicar o caminho da vida na morte, da morte na vida. Que maravilhas nos aguardam? Que perigos? 

Existe esse livro? Existe um livro dos vivos e dos mortos, ou deveríamos deixar os mortos aos mortos e buscar um novo modo de vida? Um modo de vida que surja da morte. Onde está o caminho para sair deste terrível momento quando não estamos mortos mas não vivemos, quando perecemos e fomos dados à luz? Existe um livro assim que nos mostre a saída deste terrível momento? 

O caminho para a vida. 

Em nossa tolice humana, pensamos poder evitar o ataque. Pensamos, como Maíle Dúin, que chegaríamos à ilha de nosso destino sem sermos molestados e nossa tarefa seria facilmente realizada. Pensamos, em nossa tolice, que retornaríamos logo para nosso lar.  

O vento teve outras idéias. 

Estamos agora presos no instante que é morte e nascimento. Terrível paradoxo. Dor atrás. Medo adiante. O que fazer? 

Estamos presos. Capturados. Á deriva. 

Pois assim como Maíle Dúin, como Brendan, como Ulisses, deveremos navegar de ilha em ilha, descobrindo maravilhas e terrores. As maravilhas e terrores das ilhas de nosso Eu. Eles navegaram de ilha em ilha desesperadamente desejando voltar para seus lares, ou seguir para vingar a perda do Gume da Batalha, a perda do pai, a perda do eu. Desesperadamente queremos deter o anseio em nossas almas; o anseio por união, o anseio pelo Eu realizado. 

Mas simplesmente isso não é fácil assim. 

Estamos numa jornada. Uma jornada do paradoxo da morte e do nascimento. Consultemos o Livro Celta dos Mortos. Ele poderia também se chamar o Livro dos Vivos. O livro do viajante vivo. O livro da mente viva, da alma viva. Provavelmente ele deveria se chamar O Livro dos Mortos e dos Vivos 

Terrível paradoxo. Dor atrás. Medo adiante. O que fazer? 

E quanto ao filho do Gume da Batalha? E quanto ao filho criado por uma rainha que não era sua mãe? E quanto ao filho nascido de um guerreiro e de uma mulher santa? O filho que é a encarnação do guerreiro espiritual. O filho que é demasiadamente belo e muitas vezes hábil em tudo o que se propõe a realizar.

O filho do Gume da Batalha; o filho cujo pai foi morto por bandoleiros. 

O filho que perdeu seu pai que era chamado de o Gume da Batalha. 

O filho que não consegue encontrar seu gume. 

O filho que quer a resposta à pergunta que todos nós fazemos: Quem sou eu? 

O filho que, ao invés, é excitado à vingança por um homem de língua venenosa no túmulo de seu pai. 

O filho chamado Maíle Dúin. 

E quanto à sua viagem, sua immram? Consultemos o que já foi chamado de o Livro Celta dos Mortos. Poderemos, neste Livro Celta dos Mortos, encontrar o caminho da vida? Poderemos encontrar a saída deste terrível momento de paradoxo? 

Formigas gigantes avançam para o mar. 

O livro poderia se também chamado de mapa. Um mapa diferente de qualquer outro já visto. Um mapa de uma região sem estradas ou cidades. Um mapa da consciência e da alma. Um mapa da jornada da alma. Um mapa assustador. 

Formigas gigantes avançam para o mar. Não tema. 

Partindo para vingar a morte de seu pai, Maíle Dúin achou bem mais do que procurava. Os ventos o desviaram do curso, para longe da ilha onde os assassinos de seu pai zombavam e riam. Sua immram não era intencional. Nossa jornada freqüentemente não é intencional. Partimos para um lugar, e acabamos em outro, num lugar onde não tínhamos intenção de ir. De fato, freqüentemente acabamos dando num lugar que estávamos evitando a todo o custo. 

Quando somos atacados, partimos nesta jornada. Maíle Dúin queria vingar a morte do pai. Nós queremos evitar o ataque. Mas aonde podemos ir para evitar o ataque? A parte alguma. Queremos deter o anseio. Queremos ser quem somos. Os resultados desta jornada não serão os esperados, então entregue suas expectativas ao fogo e simplesmente se apresente. Deixe suas expectativas onde estão. Deixe as formigas gigantes onde estão. 

Esta é uma jornada até as profundezas.  

Esta é uma jornada de retorno. 

No segundo em que Brendan entrou no mar, ele embarcou numa jornada de retorno. 

No segundo em que Maíle Dúin entrou no mar, ele embarcou numa jornada de retorno.

 No mesmo instante em que Oísin montou no cavalo branco, ele partiu numa jornada de retorno.  

Estamos na mesma jornada, a mesma odisséia de ilha a ilha. As ilhas por onde viajamos são as ilhas do nosso corpo, da nossa mente, da nossa alma. Queremos regressar ao nosso lar. À segurança de nossas muralhas. Mas não podemos regressar. Aquele lar com sua segurança já não está mais lá. Nossas muralhas ruíram. Quando saímos ao mar, um medo nos impelia. Uma paixão nos impelia. Uma paixão de anseio. Qualquer senso de segurança que tivéssemos então era falso. Acabou. Deixe-o com as formigas vermelhas gigantes e as suas expectativas. 

Nós poderíamos regressar a um lar. Mas não seria o mesmo. Seríamos como Oisín retornando à Irlanda após cem anos na Ilha da Juventude. Oisín retornando a uma Irlanda diferente daquela que deixou. Com os Fianna partidos, retornamos a pessoas e cavalos pequenos que não nos reconhecem. 

Esta jornada é uma jornada até as profundezas e uma jornada de retorno.

O retorno, no entanto, assim como o resto da jornada, não é o que se esperava. Não retornaremos aos antigos padrões. Nossos antigos padrões nos matariam instantaneamente. Quando voltamos aos antigos padrões, as formigas gigantes nos devoram. O gato brincalhão dispara através de nós, uma seta flamejante, transformando-nos em pó. 

Se reassumirmos antigos padrões, os antigos padrões nos transformarão em pó. 

Esta é uma jornada para trazer para fora o que está dentro de nós. Se falharmos, ela nos destruirá. Se falharmos, seguiremos para sempre com os enlutados dentro de nós. Seremos como o irmão de criação de Maíle Dúin, sempre de preto, lamentando em luto. 

Não podemos regressar ao velho lar e sentar à beira do fogo como se nada tivesse acontecido. Estivemos nas profundezas do mundo. Algo aconteceu. Algo portentoso aconteceu, a nós e ao nosso mundo. Sentar à beira do fogo, como sempre fizemos, nos destruirá. 

Cairemos do cavalo junto com Oisín. 

Poderíamos redescobrir uma segurança. Poderíamos perceber que não precisamos de muralhas para a segurança. Se viajarmos às ilhas de nossa psique, perceberemos que não há segurança atrás de muralhas, não há segurança dentro das muralhas, não há segurança no nosso lar, não há conforto em nossos sapatos pesados com a lama do dogma. Se viajarmos a essas ilhas distantes, poderemos aprender as coisas que Maíle Dúin aprendeu, as coisas que Brendan aprendeu. As coisas que Ulisses aprendeu. Não há segurança nas alturas, não há segurança nas profundezas, só há segurança para além de todas as profundezas e todas as alturas. 

Mas para alcançar esta segurança para além de todas as profundezas e todas as alturas, primeiro temos de passar pelas profundezas. Esta é a jornada às profundezas. Não há segurança. 

Então, agora, vamos preparar nossos barcos e seguir pelo mar. É hora de partirmos. Mas o que digo eu? É minha hora de partir. É sua hora de partir. A jornada deve ser feita em solidão. Somos nossa própria tripulação. Nosso Eu inteiro deve nos acompanhar. Devemos empreender a jornada como nosso Eu com todas as suas partes. Não mais. Não menos. Atenção: qualquer parte que levemos em nossa tripulação que não seja realmente uma parte de nosso Eu, não voltará. 

Deveremos navegar pelo mar de vidro. O mar da clareza. O mar da honestidade. A jornada às profundezas exige clareza. Exige honestidade. Não é fácil. Não podemos nos esconder de nosso Eu atrás de partes que não são do Eu. A jornada às profundezas será de purificação. Essa é a jornada às profundezas. A jornada às profundezas nos purificará daquelas partes de nós que não são de nosso Eu. Atenção: os detritos serão removidos. 

E mesmo assim essas partes que pensamos serem parte de nosso Eu acharão jeito de embarcar conosco. Em nossa tolice, ignoramos as palavras dos sábios, e permitiremos que elas venham conosco. 

Ai do primeiro irmão de criação, para sempre cinzas no mar. 

Ai do segundo irmão de criação, para sempre em luto. 

Ai do terceiro irmão de criação, para sempre rindo. 

Atenção. Nossa segurança se foi. Atenção: estamos deixando a segurança da terra, a segurança de uma religião que nos foi dada, às vezes forçada sobre nós. Devemos esquecer a religião. Devemos abandonar a segurança da religião. No instante em que zarpamos em nosso barco, esta segurança desaparece; desaparece enquanto embarcamos em nossa jornada de retorno. 

E assim a pergunta é essa: retornaremos? Seremos capazes disso? 

Em nossa humana tolice, pensamos estar perto de nosso objetivo. Pensamos que ele será fácil. Pensamos, em nossa tolice, que voltaremos em breve ao nosso lar. Aceitamos o ataque dos ventos e, no mar inquieto, somos lançados de lá para cá pelo capricho dos ventos. Estamos vivos e mortos. Lamentamos esse estado de coisas e temos certeza de que ele é culpa das partes do Eu que não são do Eu. 

Nós permitimos que viessem. Ignoramos as palavras dos sábios. E agora, num mar perigoso, nós as culpamos.

Estamos com medo. 

Uma ilha surge. 

Dessa ilha, formigas vermelhas gigantes avançam para o mar. 

Afaste-se! Você não tem que olhar para esta ilha. 

Afaste-se! Você não precisa vir aqui. 

As formigas vermelhas gigantes de nossas decisões avançam para o mar. Nossas decisões e escolhas criaram essas formigas do tamanho de potros, agora ávidas para nos devorar. Nossas decisões e escolhas são o que faz a nossa vida. Nossas decisões e escolhas são o que afeta os outros. Nós ainda não as vemos como são. Temos medo do mundo à nossa volta, ele certamente nos devorará a qualquer momento. Nós ainda precisamos aprender sobre: 

As formigas vermelhas gigantes de nossos motivos. 

As formigas vermelhas gigantes de nossos instintos. 

As formigas vermelhas gigantes da religião de outra pessoa. 

Afaste-se da beira! 

Na ilha das formigas gigantes, conhecemos o medo. Tememos por nós, tememos por nossos irmãos de criação. Remem para a ilha dos pássaros! A nutrição do espírito aliviará nossos medos.  Mas o cavalo de patas de cão nos relembra. Ele pisoteia a areia, nos atira pedras. Se nossos motivos, se nossos instintos apenas pudessem ficar dentro. Ah, mas eles não ficam. Eles são o alimento do cavalo de patas de cão. Alimentamos a mesma coisa que nos destruiria. Em nossa tolice, não vemos. Só vemos os restos do saque, cascas das avelãs da sabedoria na ilha dos cavaleiros gigantes. Não vemos os cavaleiros gigantes dos cavalos gigantes, não vemos como alimentamos o cavalo de patas de cão ávido por nos destruir. Ouvimos os cavaleiros falando, mas não entendemos sua língua. Só ouvimos nossa insanidade em suas vozes, em nossas cabeças. Ouvimos a vanglória da corrida. Insanidade da corrida dos demônios. 

A morte anda está tão perto de nós, nosso nascimento é temeroso. O mundo ao nosso redor nos devorará a qualquer momento. A nuvem da catástrofe iminente se abrirá e nos afogará. 

Numa perigosa jornada estamos nós. Ser humano é a mais perigosa das jornadas. 

Os cavaleiros invisíveis nos cavalos mais velozes que o vento nos assustam. Mas para os cavaleiros dessas montarias, não há medo. Eles podem montar, cavalgar, e correr com esses animais magníficos. Eles estiveram onde não fomos ainda, eles sabem o que não sabemos, e nós os tememos. 

Sabemos que estamos em apuros. Sabemos que fomos atacados. Porque fomos atacados? Não temam. Continuem.

A morte já passou. 

A encrenca de Caridwen já passou. 

Agora começa a encrenca real. 

A vida está atrás daquela porta. 

Para encontrar o começo do nascer, devemos querer prosseguir, devemos querer navegar até a próxima ilha. É lá que encontraremos uma porta com uma abertura. 

A abertura que a disposição abre. 

A abertura aberta pela disposição e que deixa o nutritivo salmão passar do mar à casa. Considere a sabedoria do salmão. Considere nossa sabedoria, que nos cegou e ensurdeceu aos cavaleiros e suas corridas. Considere nossa sabedoria, que criou formigas vermelhas gigantes e cavalos de patas de cão para nos devorar. 

Considere a sabedoria do salmão. 

Considere a sabedoria do salmão, a sabedoria das avelãs pendendo sobre o poço da sabedoria. Considere Odin no poço da sabedoria. Odin, agora um salmão, vem à casa. Considere Fionn e Finnegas. Fionn agora com a sabedoria de Fionn vem à casa. Jesus agora o Cristo, Siddartha agora o Buda, vêm à casa pela abertura da disposição. Considere todos os outros que foram atacados. Atacados pelo salmão da sabedoria. 

Você está disposto a mover a abertura para deixar o salmão entrar em sua casa? 

Considere o jovem na campina verde, atacando Cormac com o doce vermelho da encrenca. Pegue um ramo enquanto atravessamos a ilha das árvores. Segure-o na mão por três dias. Não o deixe sair de sua mão por três dias. Não o jogue de lado até que a maravilha do nascimento ocorra.  

Um menino não pode se forçar a crescer. Uma árvore não pode se forçar às alturas. 

Um menino não pode se impedir de crescer. Uma árvore não pode se impedir de alcançar as alturas. 

Nosso nascimento não provêm de nossos esforços. Nosso nascimento virá da cessação dos esforços. Nosso nascimento virá da paciência e da aceitação do ramo como um ramo. 

Mas isso exige tempo. A jornada já começou. 

Segure o ramo por três dias e terá a doçura das maçãs para nutri-lo.    

O Livro dos Mortos e dos Vivos de James Liter © 2007. Todos os Direitos Reservados. A reprodução deste artigo sob qualquer forma é proibida sem autorização escrita do autor. 

Traduzido do Inglês por Endovelicon (Ricardo S. Silva) em Fevereiro de 2008 com Permissão do Autor.             

      

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